Como ocorre em todas
as áreas do conhecimento humano, também no terreno das lesões de
glândulas salivares, grandes têm sido os progressos de natureza
científica. Assim, tem surgido novos conceitos e classificações
mais precisas que permitem uma identificação mais exata das várias
patologias que até então eram, muitas vezes, confundidas por seu
quadro clínico ou histopatológico.
Esses tumores podem ser encontrados
em qualquer localização da boca, porém, ocorrem mais
freqüentemente no palato mole e na parte interna do lábio, onde se
situam em grande número as glândulas salivares menores.

Clinicamente, eles se apresentam como tumores nodulares, de
evolução lenta e assintomática, delimitados, e que se ulceram
somente quando atingem grande volume. Os tipos histológicos
malignos mais freqüentes são os carcinomas adenocísticos (também
chamados de cilindromas), os carcinomas muco-epidermóides, os
tumores de células acinares e o adenocarcinoma. Entre os tumores
benignos, o adenoma pleomórfico ou tumor misto de glândula salivar
é o mais freqüente e apresenta raramente um correspondente
maligno. O diagnóstico diferencial dos tumores de glândula salivar
só pode ser feito por meio da biópsia. Diferentemente dos outros
tumores da boca, a maior incidência dos tumores de glândula
salivar se verifica no sexo feminino
As lesões de glândulas
salivares
compreendem as
glândulas salivares maiores (parótida, submandibular e sublingual)
e as glândulas salivares menores (mucosa oral, palato, úvula,
soalho bucal, porção posterior da língua, área retromolar, área
peritonsilar, faringe, laringe e seios paranasais). A parótida e o
palato são os sítios mais comuns de tumores de glândulas salivares
maiores e menores, respectivamente.

Adenoma carcinoma da G.Parótida
Uma grande
variedade de lesões benignas afeta a mucosa bucal. Muitas destas
lesões apresentam anomalias de desenvolvimento em vez de
neoplasmas verdadeiros, sendo que a potencialidade de
transformação maligna da maioria das lesões é mínima, como
mucocele, rânula, sialoadenite. No entanto, possuem algumas
características comuns, incluindo a aparência geral elevada e
limites com bordos bem circunscritos. Quando palpadas, as lesões
benignas costumam ser francamente móveis, sendo, na maioria dos
casos assintomáticas e somente percebidas quando interferem na
função ou sofrem irritação. Alguns destes neoplasmas benignos
apresentam tendência à recidiva, principalmente se a excisão for
incompleta.
Os
tumores de glândulas salivares
embora sejam incomuns, não são tão raros. A incidência anual de
tumores de glândulas salivares no mundo está em torno de um a 6,5
casos por 100.000 pessoas, podendo ocorrer tumores mesenquimais
(por exemplo, hemangioma) e metastásicos no interior das glândulas
salivares.

Geralmente os
tumores malignos de glândulas salivares em estágios iniciais são
curáveis por meio de ressecção cirúrgica, somente. O prognóstico é
mais favorável quando o tumor encontra-se nas glândulas salivares
maiores, particularmente na parótida; e menos favorável quando se
localiza na glândula submandibular; e ainda menos favorável quando
se encontra na glândula sublingual ou em uma glândula salivar
menor. Os tumores volumosos ou de alto grau têm o prognóstico mais
precário e podem ser mais bem tratados com ressecção cirúrgica
combinada com irradiação pós-operatória. O prognóstico depende da
glândula de origem, da histologia, do grau de malignidade, e do
grau do tumor primário.

Tumefação no lado direito da face de
um paciente portador de cisto de retenção da glândula
parótida
Localização
Segundo Cawson (1997), os "cistos salivares" são comuns nas
glândulas salivares menores, porém raros nas maiores. As mucoceles
das glândulas salivares menores são apenas raras vezes de
retenção, preponderando os de extravasamento numa proporção de
6:1. É uma lesão comum da mucosa oral que se origina a partir da
ruptura de um ducto da glândula salivar e consequentemente
derramamento de mucina para o interior dos tecidos moles
circunjacentes, acometendo mais crianças e adultos jovens pelo
fato destes pacientes serem mais submetidos a traumatismos.
Robinson e Hjorting-Hansen verificaram que cerca de 65% dos 125
casos de mucocele relatados ocorreram nas três primeiras décadas
de vida6. O lábio inferior é o sítio mais comum,
ocorrendo em 75% dos casos (Neville, 1998), podendo ocorrer, menos
freqüentemente, no palato e soalho da boca (rânula)3.
Diferentemente, Standish e Shafer, após analisar uma série de 97
casos relatados, observaram que perto de 45% destas lesões
ocorreram no lábio inferior.
Rânulas
- são grandes cistos de retenção dos ductos
das glândulas submandibular ou sublingual, ou das glândulas
mucosas do assoalho da boca. São lesões que podem ocorrer em
qualquer idade, com início bastante rápido, podendo ser
relativamente grandes a ponto de deslocar a língua. Segundo
Shafer, a etiopatogenia parece ser as mesmas da mucocele, embora
alguns pesquisadores acreditem que ela possa ocorrer pelo bloqueio
do ducto ou por desenvolvimento de um aneurisma do ducto. O
tratamento de ambos os cistos consiste na excisão ou
marsupialização e remoção da fonte de irritação.
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Visualização parcial da glândula após incisão para remoção
cirúrgica |
Sialoadenite - é uma inflamação das
glândulas salivares que pode ter origem a partir de causas
variadas, infecciosas ou não. A maioria das infecções bacterianas
originam-se de uma obstrução do ducto ou por diminuição do fluxo
salivar, sendo que o bloqueio ductal pode ser causado pela
presença do sialolito e a diminuição do fluxo pode ser devido à
desidratação, debilitação ou medicações que inibam as secreções4.
Segundo
Sonnis, clinicamente podemos classificar as sialoadenites em
agudas e crônicas.
As infecções bacterianas agudas-
costumam resultar da formação de cálculos (sialolitos). Wakley
relatou que a ocorrência de sialolitíase em um grande número de
casos mostrou a seguinte distribuição: 64% no ducto e glândula
submandibular, 20% no ducto e glândula parótida, 16% em ducto e
glândula sublingual. Já numa série de 180 casos relatados por Levy
e colaboradores, a distribuição das glândulas foi de 80%, 19% e
1%, respectivamente6.
As infecções bacterianas crônicas
- aparecem como seqüela da obstrução crônica do ducto, podendo
também ocorrer secundariamente a infecções agudas, ou como
conseqüência da síndrome de Sjogren. Dentre as infecções
viróticas, podemos citar uma das formas mais comuns de sialoadente
aguda, que é aquela associada com a caxumba, virose contagiosa
transmitida pela saliva3. Shafer (1987) diz que quanto
ao tratamento, os cálculos pequenos (às vezes) podem ser removidos
pela manipulação enquanto que as pedras maiores quase sempre
exigem exposição cirúrgica para remoção.
Os tumores de glândulas salivares
constituem uma área importante no campo da Patologia Oral e
Maxilofacial. O sítio mais comum para os tumores de glândulas
salivares é a glândula parótida, acometida em 64 a 80% dos casos,
sendo uma pequena quantidade maligna, variando de 15 a 32%. O
adenoma pleomórfico é o neoplasma mais comum e corresponde a
aproximadamente 90% de todos os tumores benignos das glândulas
salivares6,3, sendo que de 53 a 77% dos casos ocorrem
na parótida. Em um estudo de 1900 casos de adenoma, Eneroth,
observou que 90% destas lesões foram diagnosticadas nesta glândula6.
O adenoma pleomórfico é mais comum ocorrer em adultos jovens entre
30 e 50 anos de idade, com leve predileção pelo sexo feminino, e
bem tratado por excisão cirúrgica, que se feita adequadamente, o
prognóstico é excelente, havendo um índice de cura de mais de 95%.
O tumor de Warthin -
é um neoplasma que acomete de 6 a 14% dos casos de tumores
benignos, e ocorre mais freqüentemente na glândula parótida, sendo
o segundo tumor mais comum desta glândula ficando atrás, somente,
do adenoma pleomórfico. A patogênese do tumor é incerta. Acomete
principalmente adultos jovens, com pico de prevalência na 6ª e 7ª
décadas de vida, com maior predileção pelo sexo masculino (10:1),
sendo o tratamento de escolha a remoção cirúrgica4.
Os tumores
malignos de glândulas salivares são mais raros que os benignos. A
maioria dos tumores (80%) ocorrem na parótida e 30% são malignos,
seguidos de 10% na submandibular e 1% na sublingual3.
Características
De acordo com NEVILLE (1998), aproximadamente de 8 a 11% dos
tumores ocorrem na glândula submandibular, sendo a frequência dos
tumores malignos nesta glândula quase o dobro que a glândula
parótida, variando de 37 a 45%. Os tumores de glândula sublingual
são raros, compreendendo não mais que 1% dos neoplasmas salivares,
no entanto , 70% a 90% dos tumores sublinguais são malignos. O
carcinoma adenóide cístico (12 a 27%) e o carcinoma
mucoepidermóide são os tumores malignos mais comuns das glândulas
salivares.
As lesões malignas das glândulas salivares maiores são
caracterizadas pelo rápido crescimento, dor, paralisia facial (em
certos tipos de tumores), trismo e envolvimento de linfonodos. O
tratamento destas lesões seguem-se com ressecção cirúrgica, e se
necessário, associada a radioterapia. O prógnostico dos neoplasmas
de glândulas salivares depende do estádio clínico do tumor, sendo
que para tumores no estádio I (inicial), o índice predictivo de
sobrevida de 10 anos gira em torno dos 74%, e no estádio IV
(avançado) em torno dos 10% (SONIS, 1996).
Segundo ELLIS
et al (1991), os tumores mais comuns da parótida é o carcinoma
mucoepidermóide (9,6%) seguido do adenocarcinoma de células
acinares (8,6%); e da glândula Submandibular é o carcinoma
adenóide cistíco (11,7%) seguido do carcinoma mucoepidermóide. Os
tumores das glândulas salivares menores incidem em torno de 9 a
23% das lesões, sendo que aproximadamente 50% destas tem sido
malignas.
O carcinoma
mucoepidermóide e o carcinoma adenóide cistíco, têm sido
considerado os tumores malignos mais comuns destas glândulas. O
sítio mais comum é no palato (42 a 54%), sendo o lábio a segunda
localização mais frequente (21 a 22%), seguido da mucosa jugal (11
a 15%), sendo que de 42 a 50% dos tumores do palato e mucosa jugal
são malignos. No lábio superior, somente 14 a 25% dos tumores são
malignos, por causa da alta prevalência do adenoma canalicular. Em
contraste, embora os tumores de lábio inferior sejam incomuns, de
50 a 86% são malignos, sendo a maioria carcinoma mucoepidermóide4.
Ellis et al (1991) afirmou que os tumores malignos mais comuns das
glândulas salivares menores são o carcinoma mucoepidermóide
(21,5%) e o carcinoma adenóide cístico (7,7%); e ainda que, em
torno de 20,7% dos carcinomas mucoepidermóides e 8,3% dos
carcinomas adenóide cístico ocorrem no palato.